No pico do Verão, estamos mais focados nas férias do que nas notícias da degradação do nosso mundo – e, de certo modo, ainda bem – mas, férias e inquietação serão mesmo incompatíveis?

A manipulação das nossas condições de vida, pessoais e planetárias – o aumento do custo de vida, a pressão da produtividade e do consumo, a falta de tempo, a rutura da natureza – talvez seja apenas uma expressão do quanto nos imaginamos separados dos outros e da natureza. 

Corremos sem descanso atrás do pote de ouro no fim do arco-íris, de promessas de felicidade futura, cavando cada dia mais o fosso da insatisfação. Queremos parar nas férias, mas encontrar o momento certo, o lugar certo, as pessoas certas – e o orçamento certo – para usufruir de momentos preciosos de férias, nem sempre corresponde ao que esperamos. 

Consumimos e consumimo-nos, arrastando connosco o mundo numa espiral de poluição e de esvaziamento de recursos, sem sequer pararmos para apreciar a cada instante a vida, que afinal tanto prezamos.

É que a vida é matéria do instante e o instante matéria da satisfação. 

Sem este apreço, porque haveríamos de parar? E quando paramos, cada instante de apreciação não é em si uma espécie de microférias? 

Numa simples respiração está o oxigénio produzido por um número incalculável de organismos que viveram nesta nossa terra desde os seus primórdios. Sem eles, não poderíamos respirar. Na verdade, sem todos os que nos rodeiam e nos habitam, não poderíamos viver.

Fazemos parte do entrelaçar da vida e tudo o que afeta-o. Não haverá contentamento na descoberta desta interligação? Teremos mesmo de continuar a destruir o mundo em busca de satisfações hipotéticas fictícias que se transformam em ilhas de lixo no oceano? 

O apreciar de cada respiração, de cada interação com este mundo extraordinário e todos os que o habitam, não serão férias dentro da inquietação? Não terão estas férias o poder de inversor o rumo tresloucado que nos é vendido, de nos acordar para a nossa pertença à grande família deste mundo, de nos sentirmos seu protetor?

Como é bom não ter de correr atrás da felicidade e vê-la crescer a cada passo, quando nos permitimos pousar realmente os pés no chão.




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