1. Chegar a casa e repousar descansado
    Já lhe aconteceu certamente, por exemplo, chegar a casa ao fim de um dia exaustivo mas gratificante e deixar-se cair no seu sofá favorito com uma sensação de satisfação completa, próxima de uma felicidade a que nada falta, ou perante um pôr do sol ou o sorriso de uma criança sentir-se subitamente transportado para um espaço aberto, claro e inseparado de um sentimento de presença e pertença harmoniosa. E o que teve de fazer para repousar nessa bem-aventurança? Nada, justamente. Ou melhor, o que teve de fazer foi… deixar de fazer.

É esse o lugar a recordar, essa morada primordial a que podemos sempre voltar quando deixamos de correr. E estamos sempre a “fazer coisas”, a correr. Atrás de qualquer coisa ou a fugir de qualquer coisa. Valerá a pena? Será necessário? Não estará a satisfação muito mais à nossa mão do que num amanhã sempre adiado?
Aprender a reconhecê-lo e repousar nesse estado de espírito tranquilo, descontraído e despreocupado é o primeiro passo. O segundo é voltar a ele sempre que possível, ou seja, agora. Um agora repetido até que o caminho de regresso seja bem conhecido e fácil de percorrer. Mais do que deixar a vida ocorrer entre esse espaço e a correria, deixemos a vida ocorrer nesse espaço. Correr para quê? Conhece alguém que tenha evitado problemas por se ter preocupado suficientemente?

  1. Nem donos, nem vítimas, nem espetadores
    Nós não somos proprietários da nossa vida e menos ainda suas vítimas. Já pensou no ar que respira? Nos milhões de anos e nos milhões de vidas que criaram esta fina atmosfera que suporta a nossa respiração e sem a qual a vida, tal como a conhecemos, não existiria? Quando come uma maçã, consegue sentir o número incalculável de interações entre o calor do sol, a frescura da água e a fertilidade da terra que tornam esse milagre de que o nosso corpo é feito possível?
    Sem essa complexa interdependência nós não seríamos. E tão pouco somos espetadores da dádiva de existir. Somos parte integrante dessa natureza, tudo o que fazemos ou não fazemos não só depende dela como influi nela. É importante sabê-lo. Após aprendermos a repousar no nosso espaço natural, o segundo ponto é assumir com sagacidade o modo como interagimos. Fazer as escolhas certas.
    Por exemplo, se está a ler esta revista, provavelmente decidiu um dia dedicar a sua existência a ajudar os outros a recuperar ou a manter a saúde e o bem-estar. Mesmo que tenhamos todos de pagar a renda ao fim do mês, não precisamos de mercantilizar a nossa atividade. Se mantivermos a boa motivação original, as contas acabam por se pagar e nada vale a satisfação de estarmos em sintonia com o coração.

E problemas surgirão, claro. E faremos o que pudermos para os ultrapassar, claro. Sobretudo se soubermos manter o espírito tranquilo
e olhar com sagacidade, com perspetiva, com largueza. Depois, como dizia Shantideva, um grande sábio e santo indiano de há 1000 anos, “se o problema tiver solução não vale a pena preocupar-se, se não tiver solução, de nada serve preocupar-se”. Já viu florzinhas a nascer entre as pedras da calçada? A vida encontra sempre caminhos!

Nota: Editorial da Revista Virya da Primavera (reservada a profissionais de saúde).




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